Isso! Agora você já está alcançando seus objetivos finais, sempre repetia: “_Tem que se ter objetivos. Tem que se ter.” Desde que nasceu é guiado por esses incríveis e estimulantes objetivos, nasceu de um erro, de um choque. Quando sua mãe olhou para seu pai ao receber a notícia que você resolvera dar as caras neste mundo, não houve confetes, champagne, choro de felicidade ou abraços demorados, houve desespero e dor, cogitaram o aborto, mas isso seria muito terrível, a igreja não aceitaria! Culpar você por uma foda de carnaval, que nem ao menos aconteceu em fevereiro ou com uma desconhecida qualquer. Pior, foi com aquela sua colega de trabalho, e você dizia: “_Nossa, nunca me imaginei com você aqui.” Mentiroso safado, quantos quilômetros de punheta já não foram dedicadas fielmente àquela mulher? E ela repetia o mesmo: “_Pois é, nunca tinha reparado em você.” Claro que já sua puta, você já fez todos os planos, já tem o modelo do vestido de casamento e sabe o sabor do bolo. “_Baunilha é clássico e uma delícia.” Pensava você. Enfim, você nasceu. E agora? Agora é aprender a andar e falar, pra poder pedir. Pedir picolé, balinha, pra ver TV até mais tarde, pra ir ao shopping, uma camisa nova, uma revista pornô, um cigarro, uma cerveja, um carro, um papelote de três, duas pedras de cinco, soro, um quarto, outro carro, uma mulher, uma não, várias, quem sabe até um homem, mas esse se pede à noite, bêbado, escondido e no final você sempre se arrepende e fala que não fará de novo, mas é tarde demais, você é bicha, isso, bicha, mas você não assume. Entra na escola pra aprender a colar macarrão em uma camiseta e dançar feito um retardado no dia dos pais, vestido de girafa, de mãos dadas com uma menina fantasiada de vaca, mas aquilo não é uma fantasia, é uma premonição, triste e perigosa. Vocês se encontrarão daqui a trinta e cinco anos, você em uma viagem de negócios, chegou no Rio faz pouco, foi à reunião e resolveu tomar uma cerveja pra comemorar o fechamento de mais um volumoso contrato, se despediu e passou pra ver as putas, e lá estava ela, não mais vestida de vaca, não que ela não fosse uma, mas é que agora as fantasias mudam, ela está de puta e você de trouxa. Você aprendeu a falar, andar, tudo pra poder ir pra escola. Foi pra escola pra entrar na faculdade, ficou cinco anos fazendo o que não queria pra poder ter um trabalho, ser alguém, quem não trabalha não tem identidade, vaga solitário pelo mundo sem saber quem é. Eu não tenho nome, não sou aquele cara gente boa e bem humorado do 204, que está sempre com a camisa do flamengo, falando besteiras e divertindo a todos, tocando violão, comendo pizza, sou Advogado! Isso, com “A” maiúsculo. Bem sucedido, elegantemente sustentado pelos cidadãos, sou procurador, juiz, ministro, um imbecil. Agora vive pra chegar o final do ano, sonhando em se aposentar e ir para o interior, lá tudo se resolve, não há preocupações, você será finalmente reconhecido como o cara engraçado do 204. Mentira! Você será o comendador, juiz, síndico, diplomata, padeiro. Você é o que você faz, isso mesmo, não vale dizer que é artista, tem que ser trabalho de verdade. _Eu escrevo! Ah, é jornalista? _Não, seu porco, sou escritor! Escreve sobre o que? _Sobre idiotas como você!
Agora sim, aposentado você tem tudo pra ser feliz, mas seu fígado já não é mais o mesmo, seu pinto já não é mais o mesmo, você já não é mais o mesmo. Sente falta da menina vestida de vaquinha na apresentação do dia dos pais, sente falta de pedir, quer voltar à graduação, até as putas que você comia nas viagens à trabalho te deixaram saudades. Agora é tarde demais amigo, os objetivos foram alcançados, você anda, fala, é formado, aposentado e pronto. Não era isso?