quarta-feira, 22 de junho de 2011

Desculpa,(:) não tenho tempo.


            _Me desculpa, é que minha vida andar super corrida, não tenho tempo pra mais nada.
            Essa é a maldita frase que se escuta de 90% dos habitantes que são nossos contemporâneos neste planeta entupido de água, chamado Terra. Vivemos na chamada era da informação, onde temos acesso a tudo e a todos. Nos sentimos cada vez mais próximos de eventos acontecidos do outro lado do globo, bem como das pessoas. Outro dia mesmo estava eu, andando aqui em Brasília quando me deparo com Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã. Não me espantei, ontem mesmo ele estava na sala lá de casa, falando sobre suas pretensões, enquanto eu o escutava atentamente tomando minha cerveja e degustando um delicioso e inofensivo pote de azeitonas pretas. Quando o vi na rua, quis conversar um pouco sobre o que ele havia dito ontem, ficaram algumas questões pendentes, e, como ontem já era tarde e eu precisaria levar as crianças cedo na escola, deixei pra outro dia, e, agora, por sorte, o encontrei na rua. Me aproximei e comecei a falar, mas, para meu espanto, não havia legendas e ele, tampouco, me deu atenção.
            _Seu safado! Ontem o ouvi por quase uma hora lá em casa, enquanto podia estar dando atenção à outra coisa, um filme ou aos melhores momentos da terceira rodada do Paulistão Série B! – ele me desdenhou e fingiu que não entendia minha situação.
            Desculpe-me, este não é o objetivo desta crônica, foi só um desabafo.
            Pois então, o que ocorre com 90% das pessoas é o que eu chamo de “Síndrome do Ocupado”, e é muito simples. São pessoas que juram que estão ocupadas o tempo inteiro, não tem tempo para tomar uma cerveja com os amigos, de fazer amor por um tempo mais prolongado com sua esposa, não tem tempo de descer com o cachorro (que, aliás, a cada ano que passa, sente-se mais triste e desamparado), não tem tempo de olhar para os filhos e dizer o quanto os ama ou ensinar-lhes como funciona este mundo louco. Os coitados têm 10 e 12 anos respectivamente, o mais velho é um guri esperto, o mais alto de sua turma, possui as melhores notas (mesmo que você não saiba nada disso) e possui interesses em videogame, boxe e pornografia. A menina, convenhamos, não é o que poderemos chamar de “promessa”, é uma pequena matulona, possui seus 70 kilos, com apenas um metro e meio, é desatenta, péssima aluna e a “excluída” da turma. Mas você não tem tempo de ajudá-la nisso, está ocupado demais trabalhando.
            _Alguém tem que sustentar esta família rapaz, você acha que é fácil, hoje em dia, pagar escola particular, inglês, natação, aula de artes para essa molecada? Sem contar as despesas da patroa, que acredite, não são modestas e singelas como você pode imaginar. – você sempre na defensiva.
            Pois então, você sempre está ocupado com seu trabalho? Todos dizem que sim, mas isso é uma grande baboseira! Quantas vezes você não ficou até tarde no trabalho só batendo papo com os colegas, falando sobre a rodada do futebol no final de semana ou sobre como aquela nova responsável pelo departamento pessoal é uma delícia, e que já ouviram falar que é uma putona? Ou pior, quantas dezenas de noites você não ficou no escritório simplesmente para não estar em casa? Ouvindo sua mulher te encher o saco com perguntas e planos que você não mais compartilha? Ou seu filho querendo te mostrar aquela banda nova que ele conheceu e quer te mostrar, já que você é (ou foi) um ótimo guitarrista e pode dar pareceres seguros e inteligentes sobre música?
            Mas, por favor, não se espante quando daqui a 10 anos, ou menos, seu filho aparecer em casa, acompanhado de dois policiais militares, que o pegaram espancado uma “idiota” na rua, ou quando sua filha aparecer cheia de olheiras, magra como o quê, resultado de noites e mais noites passando um pó no nariz. Menos mal, finalmente você e sua esposa se unirão novamente, um precisa do outro pra superar esta catástrofe.
            _Onde será que erramos, meu amor – questionará sua donzela.
            _Também não entendo benzinho, demos a melhor escola, viagens, cultura, esporte. Além disso, você sempre esteve em casa para acompanhá-los. – argumentará você, já tentando sutilmente jogar a culpa para sua pobre esposa e tirando de si qualquer responsabilidade.
            Você não faz nada na sua vida, tudo por ausência de tempo. Até porque você sempre dizia que seu tempo livre é simplesmente para descansar. Trabalhando das 9 às 12, voltando às 14 e saindo às 17:30 não tem como viver. Pára! Pára pelo amor de Deus com essas suas desculpas ridículas. Você tem tempo sim, é só deixar de ser esse grande filho da puta que você é! Não me venha com mais essa resposta, depois que te convidar para jogar aquela inocente sinuca, para colocarmos os assuntos em dia:
            _Ok, qualquer coisa eu te ligo.
            Qualquer coisa o que seu porco? Você me liga se bater o carro? Se ver a imagem de um santo no pára brisas do seu imponente carro? Assuma sua doença! Ela já está em estado terminal. Você nem ao menos sabe que é portador, é só mais um homem cansado, cheio de problemas e sem tempo para nada. Mas você não tem limites, e me pergunta:
            _Mas o remédio pra isso aí é de uso oral né? Não tenho tempo para terapias ou coisa que o valha.
            Coitado.

Felipe Costa

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Entre eu e eu mesmo


Você não está cansado?
Cansado de falarem da mulher que você apresentou na última semana, e que jurava que se casaria com você, porque nunca havia visto ninguém tão inteligente, esperto, generoso, carinhoso e bom de cama em toda a vida?
Pois é, e você pensando:
_Porra, de novo deixei isso acontecer, apostei todas minhas fichas, me dediquei, sonhei, planejei, e nada! Tenho que parar com isso, e logo.
Quem disse que você tem que parar com isso? Você é o mais vivo dos seres humanos! Mesmo ouvindo desde criança que homem não tem sentimentos, não chora, não deve comprar flores, não leva pra jantar ou compra viagens, não planeja, não se entrega na mão de mulher alguma, você é forte, não se deixou levar. Foi lá, conheceu, conquistou e vivenciou os, então, melhores 59 dias da sua vida!
_Nossa, como você é exagerado. – dizem alguns.
Não! Você não está errado. Assim que se vive, você é um exemplo! Exagere! Parabéns! Você deveria aparecer em horário nobre na TV ensinando como se vive.
Vive-se intensamente, como se aquilo fosse sempre o último.
Comendo aquele sanduíche de atum que você embalou de manhã para não sentir fome no trabalho ao final do dia, como se fosse o último.
Que delícia, isso sim é um sanduíche de atum, é o rei dos sanduíches de atum! Rei não, pois não conseguiu este cargo por acaso ou hereditariedade, ele é o mestre dos sanduíches de atum, todos os outros sanduíches se curvam frente a ele, pois reconhecem sua superioridade e sabor. Comendo e fechando os olhos a cada mordida, que beleza de atum, que pão magnífico, quanto sabor, leveza e imponência.
Da mesma forma você fez com a sua mulher, cada vez que você a olhava dizia com toda sinceridade do mundo:
_Essa é a mulher mais bonita que eu já vi em toda minha vida.
Cada detalhe era maravilhoso, aquele sorriso, aquele cheiro, aquela manchinha na perna, que conversas incríveis, que humor, que elegância.
Quero estar contigo pra sempre, vamos nos casar, não saio do seu lado por nada nessa vida. Leve meu coração, ele te pertence, leve meu carro, meu humor, minha cabeça, meus sonhos, meu dinheiro, meu hâmster, as revistas velhas, meu bom senso, meu pudor, leve, leve tudo, eu fico com seu amor.
Ok, eu te entendo. Deu errado, ela te largou sem justificativas plausíveis, sumiu.
Você não tem mais notícias desde aquela que foi a mais triste das noites tristes.
Logo no reveillon, logo quando vocês faziam aniversário de relacionamento?
Tinha que ser dessa forma? Tinha que ser hoje?
A verdade é que poderia ser em uma terça ou quarta-feira qualquer, depois do jogo ou antes do jantar, seria terrível de qualquer jeito, você diria:
_Mas logo hoje que meu time perdeu? Será que isso já não era tristeza suficiente? Não, pra mim tristeza nunca é suficiente. – mais uma vez você mostra como se deve viver.
Chore!
Mas não chore para que ela te veja de olhos inchados e sinta dó. Chore como se tivesse a certeza de que um novo amanhecer não existirá, chore como se aquele fosse o seu fim, como se sua vida não valesse mais a pena, aliás, você não tem mais vida, sua vida era ela, seu por que era ela, nada vale a pena sem ela. Chore como se tudo dependesse de suas lágrimas. Todos estão te observando e torcendo pra você sofrer, quanto mais dor você sente, mais os outros vivem. Soluce de choro, sinta um frio na barriga inexplicável, tenha náuseas, vontade de vomitar, se desespere, dê chilique, se debata no sofá, jogue o controle remoto na parede (disso você se arrependerá), grite se preciso, ela merece.
Depois disso, abra uma cerveja e escreva, escreva, escreva, escreva...

A Certeza e sua incerta natureza

A certeza, que é vista pela esmagadora maioria de nossa sociedade como uma virtude e algo imprescindível para o sucesso (veja bem que a palavra sucesso neste caso (finalmente (será que posso usar tantos parênteses assim?)) não está sendo usada com um viés profissional/econômico ou de qualquer maneira associada a algum status ou que gere uma boa visão para as pessoas(ok, agora você terá que retornar à última palavra que escrevi antes do(s) parênteses porque possivelmente já nem lembra mais sobre o que estou falando, ou melhor, te sugiro voltar a ler o texto de novo, não será tão difícil, ainda estamos no primeiro parágrafo, não que eu ache que haverá muitos, mas de qualquer forma ainda estamos no primeiro parágrafo) é na verdade algo muito relativo e que merece ser fruto de análise, terapia, pesquisa ou que simplesmente seja assunto de uma boa conversa acompanhada de uma boa cerveja e, se possível, uma boa companhia.
A certeza é preponderante para o início de um novo projeto, por exemplo, se aparecer seu amigo Paulo e dizer mais uma vez:
_É cara, acho que vou mais uma vez terminar com minha namorada.
Você irremediavelmente e sem pestanejar perguntará:
_Tem certeza?
Outros casos:
_Cara, vou largar tudo, já não agüento mais, vou para o nordeste tirar umas férias.
_Vou vender a empresa, surgiu uma ótima oportunidade.
_Vou pedir de calabresa.
Você responderá todas estas frases com a pergunta: Tem certeza? E o fará com toda a “certeza” do mundo. Parece que a certeza virou um pressuposto, uma boa desculpa, mais que isso, uma boa razão, uma causa nobre, uma desencadeadora de mudanças de rumos, de decisões, uma precedente de grandes ações, quem sabe ações históricas.
_Roger Federer, quando resolver seguir a carreira de tenista tinha certeza que aquil daria certo, Newton tinha certeza de suas convicções à  respeito da física, assim como seu colega de área Einstein, Mandela tinha certeza de que a igualdade era o caminho certo.
Tudo bem, eu entendo seu argumento, a certeza já ajudou muita gente, já vi e li vários depoimentos a seu favor, mas Bin Laden também tinha certeza que daria certo antes de derrubar as torres gêmeas, o atirador maluco do Realengo também tinha certeza antes de realizar os disparos naquele infeliz episódio na escola no Rio.
_Você tem certeza que é seguro?
_Claro.
E estas foram suas últimas palavras antes de serem pegos em flagrante roubando goiabas da bonita fazendo do seu Manoel.
As coisas mudaram um pouco não é mesmo? Você já começou a ver a certeza como uma jogadora, se faz de boazinha sob seus olhos, mas atua nos dois lados, para o bem e para o mau. Bem, a certeza toma o rumo que cada pessoa destina a ela, não sou psicólogo ou coisa que o valha para analisá-la, sou só uma pessoa normal que costuma analisar as coisas.
Será que temos mesmo que ter certeza das coisas? Será que a certeza existe mesmo?
Eu acredito que não, e por isso estou aqui ouvindo uma nova banda portuguesa que conheci, chamada B Fachada, e escrevendo estas coisas. Sou da ala de pessoas que não acredita na certeza, na verdade somos um grupo um secreto que lembra a maçonaria neste ponto, somos apartidários, discretos e convivemos normalmente na sociedade, falamos que temos certeza de muitas coisas e dificilmente somos descobertos, mais que isso, dificilmente somos descobertos por nós mesmos.
O ser humano é muito instável, a certeza acompanha esta tendência, é um sentimento (sim, ela ganhou status de sentimento agora) muito inseguro, fica em cima do muro e muitas vezes muda de opinião sem avisar a ninguém, sem deixar uma nota de rodapé ou avisar por e-mail ou recado na caixa de mensagens do seu celular como fazem muitos. Se eu for esperá-la para fazer todas as coisas na minha vida, provavelmente envelhecerei sem fazer muitas coisas, não pelo mundo ou para evoluir a humanidade, o que acredito que dificilmente farei. Provavelmente demoraria horas na padaria, são tantos pães, doces, delícias, o que comerei? Que livro lerei, beats, russos, best-sellers? Blues, jazz, rock, folk? Que camisa, preta ou azul marinho? Malditas tonalidades, felizes são os daltônicos ou as tevês de antigamente.
Caro leitor (caso você realmente exista), não se prenda nesta história de certezas, sempre tive uma queda pelas tentativas, se bem sucedida você finge que tinha certeza que daria certo. Isso, use a certeza a seu favor, use-a somente que você tiver certeza, ou seja, depois do resultado, do evento realizado, do jogo terminado, do contrato fechado, do livro lido, da música escutada, da fome esgotada. Mas não seja explicito, queremos seguir como uma sociedade secreta, implementando nossas idéias aos poucos e, também aos poucos, dando uma forma mais incerta ao nosso mundo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Não era isso?

Isso! Agora você já está alcançando seus objetivos finais, sempre repetia: “_Tem que se ter objetivos. Tem que se ter.” Desde que nasceu é guiado por esses incríveis e estimulantes objetivos, nasceu de um erro, de um choque. Quando sua mãe olhou para seu pai ao receber a notícia que você resolvera dar as caras neste mundo, não houve confetes, champagne, choro de felicidade ou abraços demorados, houve desespero e dor, cogitaram o aborto, mas isso seria muito terrível, a igreja não aceitaria! Culpar você por uma foda de carnaval, que nem ao menos aconteceu em fevereiro ou com uma desconhecida qualquer. Pior, foi com aquela sua colega de trabalho, e você dizia: “_Nossa, nunca me imaginei com você aqui.” Mentiroso safado, quantos quilômetros de punheta já não foram dedicadas fielmente àquela mulher? E ela repetia o mesmo: “_Pois é, nunca tinha reparado em você.” Claro que já sua puta, você já fez todos os planos, já tem o modelo do vestido de casamento e sabe o sabor do bolo. “_Baunilha é clássico e uma delícia.” Pensava você. Enfim, você nasceu. E agora? Agora é aprender a andar e falar, pra poder pedir. Pedir picolé, balinha, pra ver TV até mais tarde, pra ir ao shopping, uma camisa nova, uma revista pornô, um cigarro, uma cerveja, um carro, um papelote de três, duas pedras de cinco, soro, um quarto, outro carro, uma mulher, uma não, várias, quem sabe até um homem, mas esse se pede à noite, bêbado, escondido e no final você sempre se arrepende e fala que não fará de novo, mas é tarde demais, você é bicha, isso, bicha, mas você não assume. Entra na escola pra aprender a colar macarrão em uma camiseta e dançar feito um retardado no dia dos pais, vestido de girafa, de mãos dadas com uma menina fantasiada de vaca, mas aquilo não é uma fantasia, é uma premonição, triste e perigosa. Vocês se encontrarão daqui a trinta e cinco anos, você em uma viagem de negócios, chegou no Rio faz pouco, foi à reunião e resolveu tomar uma cerveja pra comemorar o fechamento de mais um volumoso contrato, se despediu e passou pra ver as putas, e lá estava ela, não mais vestida de vaca, não que ela não fosse uma, mas é que agora as fantasias mudam, ela está de puta e você de trouxa. Você aprendeu a falar, andar, tudo pra poder ir pra escola. Foi pra escola pra entrar na faculdade, ficou cinco anos fazendo o que não queria pra poder ter um trabalho, ser alguém, quem não trabalha não tem identidade, vaga solitário pelo mundo sem saber quem é. Eu não tenho nome, não sou aquele cara gente boa e bem humorado do 204, que está sempre com a camisa do flamengo, falando besteiras e divertindo a todos, tocando violão, comendo pizza, sou Advogado! Isso, com “A” maiúsculo. Bem sucedido, elegantemente sustentado pelos cidadãos, sou procurador, juiz, ministro, um imbecil. Agora vive pra chegar o final do ano, sonhando em se aposentar e ir para o interior, lá tudo se resolve, não há preocupações, você será finalmente reconhecido como o cara engraçado do 204. Mentira! Você será o comendador, juiz, síndico, diplomata, padeiro. Você é o que você faz, isso mesmo, não vale dizer que é artista, tem que ser trabalho de verdade. _Eu escrevo! Ah, é jornalista? _Não, seu porco, sou escritor! Escreve sobre o que? _Sobre idiotas como você!
Agora sim, aposentado você tem tudo pra ser feliz, mas seu fígado já não é mais o mesmo, seu pinto já não é mais o mesmo, você já não é mais o mesmo. Sente falta da menina vestida de vaquinha na apresentação do dia dos pais, sente falta de pedir, quer voltar à graduação, até as putas que você comia nas viagens à trabalho te deixaram saudades. Agora é tarde demais amigo, os objetivos foram alcançados, você anda, fala, é formado, aposentado e pronto. Não era isso? 

Últimos dias...

Nos teus últimos dias de romance
Vagando sem preferência,
Sem motivo, alcance ou coerência.

Teus lábios brilhosos de saudade
Teus olhos fadados ao alarde
Do sumiço incompreendido

Viver não é só esquecer o passado
Ou buscar o sucesso e a decência
Sem chegar por último ou atrasado
Sanando suas vontades e carências